União dos Juristas Católicos do Estado do Rio de Janeiro

Artigo publicado no Jornal Folha de São Paulo

 

“A FÉ NÃO TEME A RAZÃO”

 

O Papa João Paulo II faleceu aos 84 anos de idade, após 26 anos de pontificado que transformou em profundidade a Igreja e a sociedade humana. Quando Karol Woityla foi eleito Papa, em 16 de outubro de 1978, o mundo estava dividido política, econômica e ideologicamente entre capitalismo e comunismo, com repercussões sobre todas as nações e povos.

 

Caiu e desintegrou-se a comunismo na União Soviética e países satélites. Ficou o capitalismo, que por si e sucedâneos mais ou menos próximos, parece  distante de ser uma resposta adequada e completa aos anseios mais profundos do homem. É dinâmico e eficaz, sem dúvida, na transformação de fatores e produção de bens em abundância, mas tem gerado profundas desigualdades na repartição das riquezas produzidas com elementos que são dádivas da natureza, criação de Deus. A abundância de bens, o seu consumo e fruir, satisfaz  temporária e superficialmente, mas não permanentemente e em profundidade. Como diz um dos maiores sábios da humanidade, Agostinho de Hipona, com palavras que atravessam os milênios: Criaste-nos para Ti Senhor e não descansamos enquanto não repousarmos em Ti. Karol Wojtyla experimentou a dor e solidão da perda de sua querida família, da mãe e do  irmão, na infância e do pai, no final da adolescência, quando se iniciava a 2º Guerra Mundial. Vivenciou o domínio e horror nazista em seu país e, em seguida, a asfixiante opressão comunista-soviética. Homem de fé profunda e autêntica, atleta da resistência e da transformação, atento e sensível à justiça e também aos valores morais. Pode parecer que não, mas ambos estão estreitamente relacionados. Onde há decadência de valores morais, tende a haver corrupção, injustiça social, relativização da dignidade humana. Disso nos alertam com veemência os grandes Profetas, Elias, Jeremias, Isaías, Amós, dentre outros. A abundância de bens tende a endurecer os corações, situação típica de nosso mundo, de nossa civilização, em que o hedonismo, a busca do prazer é proposta como sentido, senão único, prevalente para a vida. Propõe-se uma espécie de ética e moral do prazer e do útil, que instrumentalizam e tornam o ser humano objeto de consumo. João Paulo II, com a acuidade de sua inteligência, abrangência e profundidade de sua vivência, cultura e saber, clamou com forte carisma, como verdadeiro herdeiro dos profetas bíblicos, a perenidade e atualidade dos valores que nos foram transmitidos pelo Povo da Aliança e levados à perfeição por Jesus Cristo, que revelou a vocação à transcendência da humanidade, seu sentido maior e definitivo. O hedonismo e o utilitarismo têm conseqüências graves e, dentre elas, a relativização do respeito à vida humana, em especial a nascente, a do mais idosos e a do doente. A vida sexual desvinculada das diretrizes que nos vêm do livro da Criação, o Gênesis, é fonte de distorções múltiplas, que não se consegue resolver com medidas “paliativas”, sendo necessário enfrentar com maturidade e disposição, livre e conscientemente, as causas. João Paulo II enfatizou a importância da família na realização pessoal e plena do homem e da sociedade. Demonstrou profundo respeito pelas realidades científicas,  apontando para a inter-relação entre essas e o conjunto do saber, como constou de seu discurso por ocasião do Jubileu dos cientistas no ano 2000: “A Igreja tem grande estima pela investigação científica e técnica, pois estas "constituem uma expressão significativa do domínio do homem sobre a criação" (Catecismo da Igreja Católica, n. 2293) e um serviço à verdade, ao bem e à beleza. De Copérnico a Mendel, de Alberto Magno a Pascal, de Galileu a Marconi, a história da Igreja e a história das ciências mostram-nos de maneira clara como há uma cultura científica arraigada no cristianismo. De fato, pode-se dizer que a investigação, explorando ao mesmo tempo aquilo que é maior e o que é mais pequenino, contribui para a glória de Deus que se reflete em toda a parte do universo. A fé não teme a razão. Estas "constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de O conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio" (Fides et Ratio, Proêmio)”. Peçamos a Deus que os sucessores desse extraordinário líder espiritual e moral da humanidade, que transcende raças, religiões, fronteiras e os mais diversos limites e condicionamentos, assimilem, aprofundem e desenvolvam seu riquíssimo e extraordinário legado, que tem muito por ser conhecido e divulgado. Para o bem de todos nós,  nossas filhas e filhos.  


Dr. Paulo Silveira Martins Leão
Presidente da União dos Juristas Católicos do Rio de Janeiro