União dos Juristas Católicos do Estado do Rio de Janeiro

Carta de Mônica

Mãe da menina Giovanna, portadora de Anencefalia, com fotografias.

Sempre sonhei com a maternidade. Acho realmente que foi para isso que eu nasci. Nos planejamos para ter o 1º em 2004. Fiz exames, reduzi o número de atividades, etc.

Giovanna foi um bebê feito com muito amor, nós a desejávamos muito. O exame que deu positivo foi festejado por todos ao nosso redor. Não sabíamos o sexo, mas não era mais um embrião, mas nosso filhinho, nosso neném.

No dia 10 de outubro de 2004, na hora de deitar, falei ao meu marido que estava um pouco preocupada com a ultra que faria no dia seguinte (Translucência Nucal), pois era nesta que se diagnosticava a anencefalia. Uma grande amiga minha tinha tido este diagnóstico uns 3 anos antes. Com mentiras (calota craniana “boiando” no líquido amniótico e que infeccionaria o seu útero e ela teria risco de vida ) e sem dar outra alternativa, a convenceram e ela acabou matando seu filho. Foi em hospital particular, pelo plano de saúde e por um “excelente“ médico que era um dos donos deste grande hospital. Só que devido à agressão que a curetagem traz ao útero, ela, além da dor emocional do que ela fez, carregou durante seis anos a vontade de ser mãe e três abortos espontâneos. Quando entramos para o exame, estava bem mais relaxada e preocupada em saber o sexo do bebê. Começamos a perceber o médico muito preocupado e calado, embora nos mostrasse o coração batendo,as perninhas e os bracinhos perfeitos mexendo. Ela mexia muito. Quando perguntou se o meu médico estava no consultório naquele momento, gelei. Muito delicadamente avisou que a anencefalia era incompatível com a vida. Chorei e ainda ali e de mãos dadas com o Marcelo falamos que a nossa responsabilidade de pai e mãe sobre a vida daquela criança já tinha sido assumida em qualquer circunstância quando a percebemos dentro de mim. Ela já estava ali, já se protegia em mim e nós já a amávamos. Quando chegamos, procuramos na Internet algo que nos orientasse, mas como estava próximo da votação que suspenderia a liminar que liberava o aborto nestes casos, só conseguimos ler opiniões contra e a favor do aborto.

O conforto veio de lindas cartas escritas por pais de bebês que nasceram com anencefalia. Lendo-as, acabamos nos sentindo presenteados por esta fonte de amor gratuito que estávamos carregando. O amor que só tem a dar sem a pretensão do retorno é o amor mais puro que existe e nunca tínhamos nos deparado com tão rica experiência. Aliás, foi um confronto enorme, a tristeza que ficou da gestação de anencefalia da minha amiga, e o amor extremo expresso por estas famílias que viveram com seus filhos o tempo que era deles.

Resolvemos que iríamos curtí-la intensamente em cada momento. Gravamos todas as ultras, conversávamos com ela, e ela por sua vez, respondia com carinhosos chutinhos.

Tínhamos o grande desafio de preparar a nossa família e os amigos para esta realidade. Como e o que falar com uma mãe que vai perder seu filho cedo demais? Pergunta-se como ela está? Como o bebê está? Foi através da carta da Ana Lúcia para o seu filho Vitor (anencéfalo) que preparamos as pessoas mais próximas. Com o amor por ela que passávamos para os outros, fizemos com que todos ao nosso redor, também a amassem. É claro que como toda mãe que sofre ao saber que seu filho tem uma doença incurável e que o levará em poucos meses (não conheço nenhuma que tenha desistido de um filho já nascido ao saber do pouco tempo de vida que tenha ), também sofri, mas a alegria de saber que a protegia e a cuidava o tempo todo, superava qualquer dor. Em momento nenhum a dor foi maior. Foram meses de, sinceramente, muita alegria.

Outra coisa que me incomodava, era a insensibilidade daqueles que não viam vida em mim. Nitidamente, me viam como uma coitadinha que estava “brincando de ser mãe”. Não tocavam no assunto da gravidez. Eram capazes de me vir com aquele barrigão e fingir que não viam.

Giovanna mudou muita coisa ao nosso redor. A começar pelo ultrasonografista, que enquanto nas primeiras ultras se referia a ela no passado (era uma menina), nas últimas já comentava que ela “tem umas pernocas”, mostrava sua boquinha, etc.

Tive uma gestação muito tranqüila como de qualquer outra mulher, com direito a enjôo e tudo. No 7º mês fiz um exame que apontou uma incisura nas artérias da placenta, que nada tinha a ver com o problema dela e tive também em outra gestação normal posteriormentes, que não deixava passar nutrientes para ela como deveria. Como já havíamos alertado meu médico que desejávamos ficar o máximo de tempo após o parto curtindo ela, ele preferiu antecipar em duas semanas, devido a seu baixo peso. Por um momento senti medo da aproximação, pois sabia que enquanto estivesse comigo, ela estaria bem. Mas logo percebi que a morte era apenas conseqüência da vida que estávamos presenteando-a. Nunca em toda a nossa vida experimentamos tamanha paz como nos dias anteriores ao parto, do parto e os meses que se seguiram. Na maternidade, uma festa. Vinte e seis pessoas entre familiares e amigos aguardavam nos corredores e no quarto para terem a chance de viver o sublime momento da presença dela no meio de nós. Só alegria. Na sala de parto, a nossa alegria e expectativa eram contagiantes. Quem via os nossos semblantes, não imaginava o que estava para acontecer. Sua chegada foi muito tranqüila e pudemos experimentar uma imensa paz. Fiquei preocupada, pois não ouvia seu choro. Sabia que corria o risco dela não reagir, não respirar e falecer no momento que cortasse o cordão umbilical. Fiquei aguardando notícias um pouco apreensiva. Foi quando ouvi seu chorinho. O Papai tirou muitas fotos dela quando o Doutor Alberto, seu pediatra, veio trazê-la para meus braços. Ela era linda! Tinha a boca do papai e o meu nariz. Seu chorinho era como se me pedisse proteção e foi o que fizemos. Fiz carinho, dei beijo, chorei, pedi desculpas pela vida curta que lhe daria e curtimos muito. Levaram ela e fiquei com uma sensação maravilhosa pois tudo que pedimos já tínhamos conseguido: Que tivéssemos um tempinho para curti-la. Mais tarde, a médica da UTI Neonatal pediu que me levassem ate lá, pois seus batimentos cardíacos estavam caindo, e um alarme já soava alertando seu estado crítico. Ao vê-la fiquei muito emocionada, pois ela estava peladinha e pude observá-la melhor e ver seus pezinhos, seus bracinhos, fofa demais! Alimentei-a por sonda e a vi fazendo xixi. Comecei a fazer carinho em sua perninha e dizer o quanto ela era amada e o quanto estávamos orgulhosos da sua força. Sem que eu soubesse do seu estado, seus batimentos começaram a subir de 94 para 129 e estabilizaram (o normal é entre 120 e 170) para a surpresa inclusive da enfermeira que estava conosco, que disse: ”Depois dizem que não tem vida...”. Foi a prova física do que eu já sabia. Giovanna me reconheceu como aquela que a protegeu durante os nove meses e deu até um “sorrisinho” de tão relaxada que ficou. Foram momentos inesquecíveis. Ver quanto éramos importantes para ela, era tudo o que precisávamos e ao mesmo tempo, nem sei se merecíamos tamanha alegria. A médica, umas três horas depois, mandou me chamar novamente pois seu estado estava se agravando. Quando cheguei lá, Giovanna não respirava mais, mas seu semblante era de que não tinha sofrido. Peguei-a no colo e percebi que naquele momento ela estava nos vendo e que sabia do amor que tínhamos por ela. Dei beijos e fiquei um tempo contemplando seu rostinho lindo.

Seu enterro foi tratado às 9:00h do dia seguinte para às 11:00h do mesmo dia. A chuva fina permanecia e por ser um Sábado de Aleluia, imaginamos que as pessoas não teriam tempo de saber e de estarem lá. O carinho de todos foi tão grande que umas 90 pessoas entre amigos e familiares foram nos dar apoio. Marcelo carregou seu caixãozinho com o orgulho de quem deu a vida e dignidade quando esta já não era possível. Giovanna foi uma guerreira que mostrou aos mais incrédulos que era pequena no tamanho, mas grande na necessidade de mostrar o quanto sua vida era importante.

Hoje, aquela paz abriu espaço para uma inconformação quando ouço a frieza com que falam do assunto.

Chamam-me de hipócrita (Revista Veja 03/09/08) por eu acreditar que crianças que nascem com anencefalia (ausência parcial do cérebro) como minha filha, têm o direito de serem respeitadas como seres humanos e cidadãs que são. Hipócritas são os que defendem os direitos dos excepcionais, mas querem que estes sejam aniquilados pelas suas mães em seu útero se assim elas desejarem.

Minha filha viveu além dos nove meses em meu ventre, apenas 6 horas e 45 minutos, mas nasceu viva e por todo este tempo, respirou sem a ajuda de aparelhos e chorou ao nascer. Esta não é somente uma discussão entre “doutores” e a Igreja como querem que acreditem.

Sinto-me profundamente desrespeitada como mãe quando ouço que uma criança como a minha filha, não tem direito à vida e tê-la protegida pelas leis que regem o meu país. Não admito que se menospreze a importância da vida da minha filha como se faz.

Se estiverem preocupados com o emocional das mães, pensem não só nas mães que rejeitam este filho “imperfeito”, mas também nas mães que os acolheram como príncipes de suas vidas. E desta forma, fica impossível eu não sofrer profundamente ao ouvir que vocês até aceitam que eu leve a gestação até o fim, mas que minha filha não tem o direito de viver o tempo que não sabemos também se ainda teremos para viver. É como se dissessem que respeitam a minha opção de fingir que sou mãe.

Sofro ao ouvir que “o que se tem no ventre materno é algo que nunca chegará a alguém”, “O útero materno é um casulo e o feto, uma crisálida que não chegará a ser uma borboleta. Tem o direito de nascer para morrer?” (Ayres Britto – O Globo 21/10/04). A constituição do meu país “abraça” a dignidade humana da minha filha e a coloca como cidadã que nasceu viva respirou sozinha e veio a óbito naturalmente. Com isso teve direito a certidões de nascimento e óbito e enterro digno como toda mãe deseja para um filho morto. Sofro ao ler em dicionários que anencéfalo é um monstro caracterizado pela ausência de cérebro. Minha filha não nasceu um monstro. Pelo contrario um bebê lindo que carregava características nossas como qualquer outro bebê. Também sofro ao ouvir mentiras tendenciosas como dizer que o bebê que nasce assim não tem vida. Quem não tem vida chora? Alguém sem cérebro chora?

Não me sinto no direito de julgar aqueles pais que tomaram decisão diferente, pois agem como um homem que por desespero atente contra a vida do assassino de um ente querido. Entendo seus motivos,mas não posso concordar com seus atos. Se eu concordasse com esta liberação, estaria aceitando que a vida da Giovanna é uma verdade relativa. A um interesse meu de passar ou não por um sofrimento. Se não quero passar por ele, então ela não tem vida. Se aceito, tem vida. Tem vida e pronto. Ponto incontestável na minha experiência de mãe que a vi respirar espontaneamente como qualquer outro bebê.

O governo deveria sim, dar todo o apoio físico e psicológico para esta mulher, para que assim como comigo, o que fique, não seja a dor de ter matado um filho, mas uma dor conformada, pois a protegi enquanto a vida lhe foi possível.