União dos Juristas Católicos do Estado do Rio de Janeiro

O perigo da concepção maniqueísta e da falta da realização de uma pesquisa histórica objetiva.

 

RODRIGO LYCHOWSKI

 


Em artigo publicado no jornal “O Globo” do dia 20/09/07, o conhecido e conceituado jornalista Elio Gaspari, publicou um artigo intitulado “Bento XVI e o padre polonês anti-semita”, no qual o jornalista adotou lamentavelmente uma posição maniqueísta, e, pior do que isso, apresentou dados históricos, que não retratam a verdade histórica concernente ao anti-semitismo polonês, além de ter criticado – a nosso ver de forma infundada - o Papa Bento XVI.

 

 

A título conciso, o que pretendeu Elio Gaspari foi, aproveitando-se de uma atitude anti-semita de um padre polonês (Monsenhor Rydzyk) que trabalha na Rádio Maria em seu país – o que constitui evidentemente um ato reprovável e inadmissível – e que recebeu reprimenda do Episcopado polonês e do próprio Vaticano (conforme admitiu o próprio jornalista), adotar uma posição maniqueísta e generalista em relação ao anti-semitismo polonês.

A tese sustentada por Elio Gaspari é que o anti-semitismo de “boa” (!) parte dos poloneses tem “raízes fundas e antigas na cultura do país” (os grifos são nossos).

Gaspari chega ao ponto de dizer que o famoso santo polonês São Maximiliano Maria Kolbe deixou-se influenciar pelo anti-semitismo e que o Papa Bento XVI, por ter se deixado fotografar com o padre Tadeusz Rydzik teria demonstrado conivência com o anti-semitismo.

Como brasileiro de origem polonesa, possuidor de dupla nacionalidade e cidadania polonesa e conhecedor da história da Polônia, sinto-me no dever de expressar o direito de resposta, acrescido do intuito de esclarecer à sociedade brasileira, de forma mais objetiva e real possível, a questão polêmica do anti-semitismo polonês.

Antes de mais nada, considero arriscado, para não dizer imprudente, falar sobre uma tema histórico polêmico, sem que se conheça a fundo a realidade do país, e sem que se faça uma pesquisa histórica no próprio país, de forma isenta. O risco que se corre é precisamente fazer afirmações maniqueístas e/ou inverídicas.

Não me parece que o jornalista Elio Gaspari tenha ido à Polônia – antes de escrever o artigo em questão – e tenha feito uma pesquisa histórica, entrevistas com historiadores poloneses, com o clero, a respeito do tema em questão.

Mas mesmo assim, Gaspari elaborou o artigo afirmando que “o anti-semitismo de boa parte dos poloneses tem raízes fundas e antigas na cultura do país” (grifos nossos).

Ora, inicialmente, a alegação do jornalista não corresponde à verdade histórica do catolicismo na Polônia.

Não se sei se é de seu conhecimento de que, alguns séculos atrás, um dos maiores reis da Polônia abriu as fronteiras do país para os judeus, já que os mesmos estavam sendo perseguidos pelos demais países europeus. Alias, é curioso que no artigo de Gaspari não haja nenhuma menção ao anti-semitismo existente em outros países da Europa.

Esse fato é confirmado pelo comentário feito na internet (em 13/06/2006) por um brasileiro, Augusto, de origem judaica, cujos avós viveram na Polônia em décadas passadas: “eu me sinto ofendido (...) porque meus avós foram salvos por essa gente... e me sinto eternamente agradecido a eles... meu povo (judeu) viveu nesse pais por 800 anos em relativa paz... muito melhor do que no resto da Europa, aliás dizem que meus antepassados foram expulsos da saxônia por serem judeus e só encontraram abrigo na Polônia (grifos nossos)”.

Corroborando o pensamento de Augusto, penso que um dado relevante deve ser divulgado: 1/3 (um terço) das árvores plantadas em Israel em homenagem às pessoas que salvaram os judeus durante a 2ª. Guerra Mundial são de poloneses !

Enfim, o que pretendemos demonstrar é que o anti-semitismo existiu e existe, infelizmente, na Polônia. E deve ser, evidentemente, combatido, reprimido e punido. Mas esse anti-semitismo não se manifesta da forma maniqueísta e generalista como escreveu Elio Gaspari.

A História desmente as afirmações de Elio Gaspari: o anti-semitismo foi exceção, e não regra na Polônia.

Tanto é assim que o grande e renomado cineasta Roman Polanski, judeu polonês, foi salvo por uma família católica polonesa, e graças a isso, dirigiu e tem realizados filmes fantásticos.

Merece registro também que na época que estourou a 2ª. Guerra Mundial, 03 (milhões) de judeus – o que equivalia a 10 % da população da Polônia em 1939, viviam na Polônia, enquanto que na Alemanha somente moravam 500 (quinhentos) mil judeus. Esse dado estatístico foi dado pelo próprio jornalista, mas, a nosso ver, ele ajuda a comprovar que os judeus poloneses foram acolhidos pelos poloneses, e não por outros cidadãos europeus.

Neste sentido, vale a pena transcrever parte da opinião de Rodrigo (obtida na internet em 13/07/07)): “existe algo contraditório nesse texto. Se antes do Holocausto um em cada dez poloneses eram judeus, conclui-se que antes não era significativo o anti-semitismo na Polônia. Sim porque os judeus não vivem em ambientes hostis a sua presença” (grifos nossos)

Outro fato importante a ser citado é que na Feira Internacional do Livro em Varsóvia de 2007, o autor britânico David Irving, que negou a existência do Holocausto, foi expulso da Feira.

É curioso, para não dizer estranho, que no seu artigo Elio Gaspari não tenha feito nenhum comentário sobre o holocausto perpetrado pelos nazistas.

É como se Gaspari considerasse o anti-semitismo polonês mais grave que o holocausto cometido pelos nazistas !

Igualmente não procede a afirmação de que o Papa Bento XVI teria sido “conivente” com a atitude anti-semita, reprovável, do sacerdote polonês.

O Santo Padre já condenou várias vezes o nazismo, e não é porque ele tirou uma foto com monsenhor Rydzyk, que isso significa que o Papa tenha concordado com o anti-semitismo. Vale lembrar que o Papa João Paulo II esteve com Fidel Castro, e isso não significou que o Papa tenha concordado com a perseguição religiosa em Cuba, e a prática de tortura e crimes de Estado naquele país. A Igreja sempre pregou que é preciso separar o pecado do pecador.

Fiquem tranqüilos leitores: inspirados pelo saudoso Papa João Paulo II, a maioria dos católicos poloneses acolhe e convive com os judeus poloneses, seus irmãos mais velhos.

RODRIGO LYCHOWSKI
Membro da União de Juristas Católicos do Rio de Janeiro
Professor Assistente de Direito do Trabalho da UERJ