União dos Juristas Católicos do Estado do Rio de Janeiro

Da Terra do Sol Nascente à “Terra Brasilis”: O Centenário da Imigração Japonesa.

CICERO HARADA

 

18 de junho de 1908. Nesse dia, chegaram a Santos, trazendo consigo cultura milenar, os pioneiros da imigração nipônica. Eram 800: 781 contratados, 10 espontâneos e outros. No vapor Kasato Maru haviam partido de Kobe, em 28 de abril de 1908. Para eles, um horizonte de esperança se abria. Uma nova vida de sonhos e pesadelos. O Brasil os recebia com fundamento no Decreto-lei nº 97, de 5 de outubro de 1892. Em 1895, fora assinado o Tratado de Amizade, Comércio e Navegação entre o Brasil e o Japão. Historiar os fatos em suas minúcias? Não, não é isto que pretendo. Os historiadores o farão melhor.

Criança ainda, nas férias de verão, ia visitar meus avós. Lá, a felicidade imensa de suas presenças. Depois, o sítio, o espaço, o encontro de primos e tios, o ar puro, o céu azul, o sol, um resto de mata atlântica, frutas e verduras em abundância, límpidos riachos, noites escuras, milhões de cintilantes pontinhos, a Via Láctea. Amiúde deitava-me a olhar fixamente aquele céu e, de inopino, mergulhava como que numa velocidade incrível na direção infinda das estrelas. Deus existe, é Ele o Criador, dizia silenciosamente a mim mesmo.

E então, ensimesmado nessas cogitações, ouvia a voz meiga de minha avó a lembrar-me do banho diário de ofurô. Enquanto isso, já entrado em anos, Keida Harada, meu avô, como fazia religiosamente todos os dias desde que chegara ao Brasil, em 1913, escrevia preciosas notas sobre a vida e os acontecimentos. Certamente eram fatos prosaicos do cotidiano, não só da família, mas também daquela operosa colônia japonesa. Esse valioso documento testemunha mais de seis décadas e sei que um tio o entregou a um amigo da família. Resgatá-lo é da maior importância para reconstruir a história privada daqueles que para cá vieram. Meu avô e minha avó tinham muito contato com uma parcela grande de famílias japonesas, pois ele fundara e por muito tempo dirigira a Cooperativa Agrícola de Suzano. Era também uma espécie de conselheiro, até mesmo intermediando, não raras vezes, o casamento arranjado (“miai”), que, para meu espanto, parecia sempre dar certo. Compartilhara, assim, com elas, a cortante nostalgia da Terra das Cerejeiras, as doenças, as agruras econômicas, o sofrimento dos tempos da guerra, da perseguição.

Mas não foram só tristezas e angustias. A família tornara-se numerosa. Havia os encontros festivos. Os arranjos florais (“ikebana”) de vovó, a cerimônia do chá (“chanoyu”). As canções (como não me recordar da tradicional “Sakura”, flor de cerejeira?), as estórias e a culinária, especialidade de minha avó. Depois, a tenacidade, o esforço e a paciência fizeram com que um filho seu, meu pai, pudesse estudar no antigo Ginásio do Estado, então, único no Estado de São Paulo e, mais tarde, bacharelar-se em direito na Faculdade do Largo de São Francisco, onde também me formei.

Cobrava-nos de todos os netos estudo, leituras e meditação sobre o que estudávamos. Queria-nos na faculdade. Respeito absoluto aos mestres. Disse-me certa feita: “não se pode sequer pisar na sombra de um professor”. Depois, aconselhava a não me remoer em dúvidas: “Pergunte sempre. Não se esqueça do provérbio nipônico: perguntar é vergonha de um dia, a ignorância, vergonha para toda a vida”.

Quando eu esmorecia, ele, voz firme e entusiasmada, exclamava: “gambarê! Gambarê!” (em português: ânimo, seja forte, lute apesar de todas as dificuldades). E lá, das profundezas de meu desânimo, da dor e do pessimismo, da raiz de meu ser, clamava a Deus a força da superação.

Exigia-nos retidão, estoicismo de samurai, sabedoria, disciplina e muito trabalho. Ensinava-nos que este era o espírito nipônico, do Japão japonês. Nada a ver com o da forte influência do american way of life do pós-guerra. Era assim que iríamos contribuir para o nosso crescimento e para compor e colorir esta linda aquarela do Brasil. “Do meu Brasil brasileiro”, “desse Brasil lindo e trigueiro”, da “morena sestrosa”, das “fontes murmurantes”, da intuição, da criatividade, da candura fagueira.

Meu avô que nunca perdera o filial e ardente amor à Terra do Sol Nascente, pôde ostentar com orgulho o título de cidadão brasileiro outorgado por decreto presidencial. Com sua mulher, filhos e netos, na saga de milhares e milhares de imigrantes japoneses e descendentes, seus corações puderam sentir o abraço das chamas de um profundo e irremediável amor: amor à terra de Santa Cruz, que com sangue, suor e lágrimas ajudaram a construir. Amor a esta sagrada “Terra Brasilis”! “Terra de Nosso Senhor! Brasil!”

Autorizada Ampla Divulgação, desde que indicada a autoria e obedecido o texto integral.
cicero.harada@terra.com.br

 

CICERO HARADA
Advogado, Procurador do Estado de São Paulo
Conselheiro da OAB-SP

Presidente da Comissão de Defesa da República e da Democracia