União dos Juristas Católicos do Estado do Rio de Janeiro

Artigo publicado no Suplemento Cátedra do Jornal “Testemunho de Fé”

Edição Janeiro 2007

VOLTA ÀS AULAS

 

Passado o Natal, quando se comemorou o nascimento de Cristo, que transformou o mundo com a sua mensagem de amor e de esperança, e decorridos os festejos do Ano Novo, que todos pretendem seja sempre auspicioso, estão a findar as férias escolares e os jovens de todas as idades estão prestes a retornar às aulas.

Lembro-me desse tempo, como se fosse hoje, no qual a perspectiva do reencontro com os colegas e mestres, além da própria escola, templo de ensino e saber, sempre me causou uma grande emoção e ansiedade, que ainda sinto, embora arrefecidas pela passagem dos anos.

É o momento de prosseguir com os estudos, aprender coisas novas, trocar experiências, descobrir valores, lapidar o espírito, desenvolver os dotes físicos, morais e intelectuais, uma verdadeira liturgia para a vida.

Recordo que, antes de ingressar na escola, minha mãe, figura excepcional, como todas as mães, da qual me lembro com muita saudade e doçura, me fez aprender alguma coisa das primeiras letras, o que me valeu, no grupo escolar, após a primeira semana, uma promoção para a 2ª série.

Que alegria ao chegar em casa e pedir para minha mãe colocar no meu uniforme uma lista branca sobre a pequena gravata azul que então se usava, indicando o ano que se estava cursando.

Lembro-me, também, das velhas carteiras, com um pequeno tinteiro, para se colocar tinta “Sardinha”, que se utilizava nas canetas, cujas penas eram importadas da cidade de Manchester, antes da industrialização do nosso País, o que somente se fazia depois de bem treinados na escrita a lápis, os cadernos de caligrafia e a tabuada que se aprendia cantarolando: 2x1=2, 2x2=4, 2x3=6, 2x4=8, e assim sucessivamente.

As brincadeiras no recreio, a merenda que se trazia de casa em uma sacola com o nome de cada aluno e que se comia com a maior sofreguidão, para não dizer apetite, geralmente pão com mortadela, marmelada, queijo ou com ovo frito e outras tantas combinações culinárias.

O carinho das professoras, que se formavam no Instituto de Educação, célebre instituição de ensino que, durante muitos anos, foi o destino das moças desta Cidade, que pretendiam ingressar no Magistério.

Depois do primário, o curso ginasial, no Colégio de São Bento, para onde fui impressionado pela magnificência e esplendor de sua igreja, o velho Mosteiro, levado pela mão de meu pai, também querido e cuja figura me dá muitas saudades, subindo a célebre ladeira, por onde descíamos, após as aulas, em desabalada carreira, como simples brincadeira de adolescentes, sem medir o perigo de uma queda.

O curso de admissão, feito no antigo prédio ao lado da Igreja, onde se construiu a “Casa de Emaús”, que hoje recebe constantemente pessoas que desejam se beneficiar do recolhimento e dos ensinamentos dos Monges Beneditinos.

Os Reitores do Colégio, todos maravilhosos, como Dom Basílio Penido, OSB, que, dentre outras coisas notáveis, jogava futebol com os alunos, enrolando a batina no seu cinto, o que, na época, impressionava a todos.

A presença feminina, subindo a ladeira para ir ao Mosteiro, era sempre saudada pelos alunos do curso científico com uma grande algazarra, pois o São Bento não tinha alunas, como não tem até hoje.

A sigla “CSB”, gravada no uniforme do colégio, era alardeada pelos colegas do Pedro II, nos embates desportivos, como significando “carregadores de saco de batata”.

O chefe da disciplina, Sr. Gouveia, que estava em todos os lados, como por milagre, observando, chamando a atenção, procurando impedir que os alunos fumassem no recreio, o que descobria, segundo se falava, através da fumaça expelida pelos cigarros, recolhendo as revistas pornográficas, que hoje já não mais seriam consideradas como tal, pelo que se assiste na televisão e se vê nas revistas e jornais, sempre com uma advertência aos pais lançada nas cadernetas, que era o que mais se temia, nas quais eram carimbados os dias de freqüência às aulas, bem como as Missas Dominicais a que os alunos deviam assistir.

Depois, a Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica, no pequeno prédio da Rua São Clemente, que escolhi em virtude de um feliz encontro com um antigo colega de São Bento, que me falou das maravilhas da referida faculdade, o que confirmei nos 5 anos que ali estive, onde passei a ter contato com os grandes temas jurídicos, com as diversas escolas de pensadores, o que muito me empolgava, egresso de um ambiente simples e humilde, tendo o privilégio de estar ali, aprendendo cada vez mais e melhor.

Já no último ano, passei para o prédio da Gávea, sendo a primeira turma que ali se formou em dezembro de 1955, há 52 anos atrás.

Depois, o trabalho na advocacia, no Ministério Público, o casamento que já perdura há 51 anos, os filhos, os netos e já agora na esperança dos bisnetos, quando também continuamos a aprender as coisas da vida.

Tudo isto visando à educação, direito universal do homem, “de qualquer raça, condição e idade, em virtude da dignidade de sua pessoa, que goza do direito inalienável à educação, a qual corresponde à sua finalidade, sua índole, diferença de sexo e se acomoda à cultura e às tradições nacionais, e ao mesmo tempo, se abre à convivência fraterna com outros povos, favorecendo a união verdadeira e a paz na terra”, palavras escritas na declaração “Gravissimum Educationis”, sobre a educação cristã, no Concilio Vaticano II, in Editora Vozes, Petrópolis, 1984, pagina 583.

Prosseguindo, o referido documento ressalta que: “a autêntica educação, no entanto, visa ao aprimoramento da pessoa humana em relação ao seu fim último e o bem das sociedades de que o homem é membro, e em cujas tarefas, uma vez adulto, terá que participar.”

Tais palavras permanecem atuais, como atuais permanecem as palavras e os ensinamentos de Jesus Cristo. O que temos que fazer é simplesmente cumpri-las.

 

Francisco Massá Filho

1º Secretário da União dos Juristas Católicos do Rio de Janeiro